Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Distração, insônia, cognição inventiva

A imagem é uma referência ao uso de Ritalina (metilfenidato), medicamento que vem sendo usado indiscriminadamente há anos especialmente em crianças rotuladas como portadoras de TDAH - Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Sobre usos do medicamento, encontramos que "TDAH é um transtorno metabólico neural, que resulta em comportamentos mal adaptados" e que "Seu mecanismo de ação no homem ainda não foi completamente elucidado"...


No final do processo careta e burocrático que culmina na obtenção de um "grau de mestre", após a apresentação de uma pesquisa, defenderei, em breve, perante à banca, minha dissertação de mestrado.
Eu achar o processo careta e burocrático não diminui o valor disso pra mim - vale dizer que passei por um processo que pelo menos tenta ser menos careta; menos burocrático não dá. Creio que importante disso tudo foram as transformações que sofri, transformações certamente inevitáveis, pois fruto do simples passar do tempo, mas também variáveis, dependendo dos rumos que se toma.
Descobri que realmente gosto de me debruçar sobre livros, e gosto, embora um pouco menos, de escrever e tentar produzir coisas a partir daí. Acho que o mais legal são as coisas que são produzidas a partir daí na prática, mas isso é bem mais difícil de mensurar. Também confirmei que tenho energia demais para ficar muito tempo parada, e meus estudos são interrompidos a cada 20 minutos para buscar um outro livro, um artigo no google, um apontador, um post-it, pedir uma dica a alguém, ou, no mínimo, mergulhar numa palavra no dicionário. A menos que eu esteja muito cansada, por não ter dormido, por exemplo.
Já vivi, li e vi o suficiente para não menosprezar ou condenar isso. Inclusive descobri pelo caminho, com Virgínia Kastrup, o conceito de cognição inventiva, e passou a fazer parte de mim a ideia de que o distraído é alguém extremamente concentrado, cuja atenção está em outro lugar: nas suas reminescências, conjecturações, ou mesmo numa outra janela na internet, vivenciando em si a experiência do hipertexto. Afinal montar uma dissertação não é propor links entre diversas coisas já ditas, montando um hipertexto original?

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Esse jeito flutuante de estudar, passando de uma tela a outra, querendo saber mais de mil assuntos, tem se refletido na minha vida profissional, de certa forma. Passei por empregos tão díspares que até assusto as pessoas contando. Parece que uns acham curioso, quase legal, mas a maioria parece achar que sou uma coitada sem rumo ou no mínimo sem "estratégia", e consequentemente não vou "chegar a lugar nenhum". A minha opinião, evidentemente, varia, dependendo do grau de angústia, auto-estima, otimismo, cansaço, etc. Acho que ainda vou "achar meu rumo", talvez inventando uma nova profissão. Ou que já estou fazendo meu caminho (disso tenho certeza) e que ele vai ser assim mesmo, ziguezagueante, porque também as vidas não tem nenhuma obrigação de serem coerentes ou... retas. Mas às vezes também acho que tenho que parar tudo e decidir, escolher uma profissão, fazer especializações, currículos só numa área, quem sabe terapia pra "decidir quem eu sou", às vezes tenho a impressão de que não concluo nada, impressão que, submetida à prova, não se verifica.


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Desde que me dou por gente, sempre dormi tarde, mesmo contrariando ordens paternas. E tenho imensa dificuldade para "madrugar". Se tiver que acordar pela manhã, um horário aceitável para mim são 09h. Que aliás, é a quantidade de horas que eu durmo, se puder dormir à vontade, o que é bem raro. Por conta da escrita, rapidamente me vejo entrando madrugada adentro acordada, às vezes ansiosa, caso tente me forçar a dormir. (E os estimulantes ou calmantes são todos produzidos no meu corpo mesmo.)
Percorri esse longo caminho para começar a falar do que me trouxe até aqui: Estou acordada, é madrugada, estou ansiosa, não tem ninguém acordado pra eu conversar. Acabei criando um monólogo que não acrescenta nada a ninguém, e me envergonha um pouco, mas que ao menos me tranquilizou. Fico em dúvida se isso deveria ser público ou um diário guardado numa gaveta (mesmo que ninguém vá ler!), e publico esperando que seja só uma primeiro passo para tentar escrever coisas melhores de vez em quando. Afinal, tá cheio de blog por aí que serve pra isso, né? (autoconsolo...)

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Para que não seja totalmente inútil a um leitor desavisado que eventualmente chegue até o fim, segue o link do artigo da Virgínia Kastrup: http://www.psicologia.ufrj.br/pospsi/aprendizagem.pdf

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